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Do que você sonha em fugir?

Confira à coluna desta sexta-feira!

Portal Guajará
Por: Portal Guajará Fonte: Colunista Wesley Humassa
06/11/2026 às 10h42
Do que você sonha em fugir?
Divulgação

O luto é uma das experiências mais profundas da condição humana. Embora seja frequentemente associado à morte, ele não se limita à ausência definitiva de alguém. Também fazemos luto por aquilo que não aconteceu, pelas relações que terminaram, pelas versões de nós mesmos que ficaram para trás, pelos lugares que deixamos e até pelos futuros que imaginamos, mas que nunca chegaram a existir. Há perdas que não fazem barulho, não recebem flores e tampouco encontram espaço nos rituais sociais. Ainda assim, doem.

Talvez uma das maiores dificuldades de viver o luto seja compreender que o mundo continua funcionando enquanto alguma coisa dentro de nós parece ter parado. As pessoas seguem seus compromissos, os dias amanhecem, as mensagens chegam, o trabalho espera. Existe uma espécie de desencontro entre o tempo do mundo e o tempo de quem perdeu. Enquanto tudo parece exigir continuidade, quem sofre tenta descobrir como continuar existindo diante de uma ausência que insiste em permanecer.

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É nesse território que podemos encontrar algumas das reflexões de Ana Suy, em seu livro A gente mira no amor e acerta na solidão. A autora nos convida a pensar sobre as contradições do amor, sobre a impossibilidade de alcançar completamente o outro e sobre a solidão que, de alguma maneira, acompanha toda experiência de amar. Afinal, amar alguém também é reconhecer que existe uma distância impossível de eliminar entre duas pessoas. Podemos compartilhar a vida, construir intimidades e dividir sonhos, mas nunca habitaremos inteiramente a experiência do outro.

Talvez seja justamente por isso que o luto seja tão particular. Mesmo quando muitas pessoas compartilham a perda de alguém, ninguém sente exatamente a mesma ausência. Cada pessoa perde também aquilo que construiu com quem partiu: as conversas que só os dois compreendiam, os pequenos hábitos, os planos interrompidos, as palavras que ficaram guardadas. A pessoa que morreu pode ter sido a mesma, mas as ausências que deixou são inúmeras.

Há, portanto, uma solidão própria do luto: a de precisar aprender a viver em um mundo no qual alguém já não ocupa o lugar que ocupava. E não se trata de esquecer, substituir ou simplesmente superar. Trata-se de encontrar outras formas de carregar aquilo que foi vivido. O amor não desaparece necessariamente com a ausência; muitas vezes, ele muda de endereço. Passa a morar nas lembranças, nos gestos herdados, nas músicas, nos objetos e nas histórias que continuamos contando.

Talvez reconstruir-se depois de uma perda seja justamente isso: descobrir que a vida não precisa negar aquilo que terminou para voltar a florescer. Existe uma delicadeza em permitir-se sentir saudade sem transformar a saudade em morada definitiva. Em compreender que seguir em frente não significa deixar alguém para trás, mas reconhecer que algumas presenças continuam conosco de maneiras que já não podemos tocar.

No fim, talvez Ana Suy nos ajude a compreender que o amor nunca foi uma garantia contra a solidão. Amar é também aceitar nossa incompletude, nossa vulnerabilidade e a impossibilidade de controlar as partidas. E o luto, por mais doloroso que seja, revela a dimensão daquilo que fomos capazes de amar.

Porque algumas pessoas partem, algumas histórias terminam e alguns mundos deixam de existir. Mas nem tudo o que acaba desaparece. Há coisas que permanecem em nós, não como feridas que precisam ser escondidas, mas como marcas de uma vida que valeu a pena ser vivida.

Talvez a tarefa mais bonita depois de uma perda não seja aprender a esquecer quem partiu, mas aprender a continuar amando a vida, mesmo depois que ela nos ensinou a sentir falta.

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