
A frase de Manoel de Barros me acompanha nesta tentativa de começar. Talvez porque todo começo carregue um pouco de retorno. Antes de dizer o que penso sobre o mundo, acho justo contar de onde olho para ele.
Sou de Guajará-Mirim. Cresci em um lugar que talvez só compreendemos verdadeiramente quando começamos a olhar para além dele. Ou, quem sabe, quando olhamos de novo, com outros olhos, para aquilo que sempre esteve diante de nós.
Existe uma espécie de descoberta em perceber que a cidade onde construímos nossas primeiras memórias também nos oferece uma maneira particular de compreender o restante do mundo. Vivemos na Amazônia, em uma região de fronteira, onde diferentes histórias, culturas e modos de vida se encontram. Ainda assim, nem sempre os lugares como o nosso ocupam o espaço que merece nas conversas sobre o país.
Paulo Freire escreveu que “a leitura do mundo precede a leitura da palavra”. Talvez seja por isso que eu acredito que, antes de tentar compreender outros territórios, precisamos reconhecer os lugares a partir dos quais aprendemos a enxergá-lo. Nossa primeira leitura do mundo acontece muito antes dos livros: nasce nas ruas que percorremos, nas conversas que escutamos, nas desigualdades que testemunhamos e nas histórias que nos contam. A minha começou em Guajará-Mirim. E é também daqui que procuro compreender as questões que atravessam a sociedade brasileira.
Tenho pensado muito sobre isso. Sobre quem conta as histórias, quem participa das decisões e quais realidades são consideradas importantes quando imaginamos o futuro coletivo. Talvez seja por isso que as discussões sociais me interessem tanto: porque ela também diz respeito aos lugares que habitamos, às pessoas com quem convivemos e às possibilidades que conseguimos construir juntos.
Não acredito que seja preciso partir para reconhecer a grandeza de onde viemos. Tampouco acredito que amar a própria terra signifique ignorar seus problemas. Há um tipo de orgulho que não precisa idealizar nada. Ele nasce justamente do conhecimento, da memória e da vontade de ver as coisas acontecerem de outra maneira.
É desse lugar que começo a escrever.
Não com a pretensão de oferecer respostas definitivas, mas com a vontade de fazer boas perguntas. Quero falar sobre o Brasil, sobre a Amazônia, sobre política, cultura, comportamento e as contradições do nosso tempo. Sobre aquilo que nos atravessa individualmente o peito, mas que quase sempre tem raízes coletivas.
Talvez este espaço seja, também, uma forma de organizar pensamentos, compartilhar inquietações e encontrar outras pessoas dispostas a olhar para as mesmas questões por diferentes perspectivas.
Por enquanto, começo pelo terreno.
Afinal, antes de conhecer o tamanho do mundo, todos nós precisamos de algum lugar onde possamos começar a imaginá-lo.