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Menos eu, mais nós

Quando a solidariedade encontra a polarização

Portal Guajará
Por: Portal Guajará Fonte: Colunista Wesley Humassa
30/10/2026 às 10h00
Menos eu, mais nós
Foto: Reprodução

Existe algo profundamente preocupante quando as divergências políticas deixam de fazer parte do debate democrático e passam a determinar quem merece respeito, oportunidades e, até mesmo, ajuda.

Nos últimos dias, temos acompanhado manifestações de empresas, empresários e pessoas que anunciam boicotes a estabelecimentos comerciais, rompimento de relações profissionais e suspensão de ações sociais em razão do resultado das eleições.

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Há quem anuncie que não distribuirá mais cestas básicas, brinquedos ou alimentos. Outros afirmam que deixarão de ajudar pessoas em situação de pobreza por não concordarem com suas escolhas políticas.

Diante disso, uma pergunta parece inevitável: em que momento a solidariedade passou a exigir concordância?

A democracia pressupõe diferenças. Pensamos de maneiras distintas, escolhemos representantes diferentes, discordamos sobre os caminhos do país e temos o direito de defender nossas convicções.

Entretanto, nenhuma dessas diferenças deveria retirar de alguém sua condição de sujeito de direitos. A escolha eleitoral não determina o valor de uma vida, assim como a posição política de uma pessoa não deveria definir se ela merece ou não receber alimento, acolhimento e dignidade.

O sofrimento também tem endereço social

A Psicologia nos oferece ferramentas importantes para compreender esse fenômeno. Ignacio Martín-Baró, em sua obra sobre a Psicologia Social da Libertação, propõe uma compreensão do sujeito a partir de sua realidade histórica, política e social.

Em sua perspectiva, não podemos compreender o sofrimento humano desconsiderando as estruturas que produzem desigualdades e as relações de poder que atravessam a vida cotidiana.

Essa reflexão nos permite perceber que a pobreza não é uma escolha individual, tampouco uma característica moral de quem a vivencia. A fome não pergunta em quem votamos. A necessidade não consulta nossas convicções.

Uma criança que precisa de alimento não deveria carregar o peso das disputas políticas dos adultos. Quando transformamos a vulnerabilidade social em instrumento de punição ou constrangimento, deixamos de reconhecer a humanidade do outro e passamos a utilizar a necessidade como mecanismo de poder.

Ajudar não pode ser uma forma de controlar

Também precisamos refletir sobre a natureza da solidariedade. Ações sociais, doações e iniciativas comunitárias são importantes, mas não podem ser confundidas com a garantia de direitos.

A assistência oferecida por empresas e indivíduos é legítima e necessária, porém não substitui a responsabilidade do Estado na construção de políticas públicas permanentes.

O problema não está em alguém decidir, por razões financeiras ou pessoais, interromper uma doação. Cada iniciativa possui suas possibilidades e limitações.

A questão surge quando a ajuda é transformada em recompensa por obediência, quando a necessidade de alguém passa a ser condicionada à sua concordância ou quando a caridade se converte em instrumento de submissão.

A solidariedade que exige alinhamento não é propriamente solidariedade: é uma relação de dependência. Ajudar alguém não nos concede autoridade sobre suas escolhas, sua consciência ou sua liberdade.

O que nos mantém humanos?

Talvez estejamos vivendo um tempo em que precisamos reaprender a diferença entre defender nossas convicções e desumanizar quem pensa diferente.

É possível discordar, criticar, escolher não consumir determinado produto e sustentar posições políticas firmes. Mas precisamos reconhecer os limites éticos de nossas ações quando elas passam a produzir exclusão, perseguição e privação de direitos.

Menos eu, mais nós não significa abandonar nossas individualidades, convicções ou diferenças. Significa compreender que a vida em sociedade exige algo que ultrapassa os interesses particulares: responsabilidade com a existência coletiva.

Não precisamos pensar igual para reconhecer a fome. Não precisamos votar igual para defender a dignidade. Não precisamos compartilhar a mesma história para compreender que o sofrimento de alguém merece atenção.

No fundo, uma sociedade não se revela apenas pelas escolhas que faz nas urnas, mas também pela maneira como trata aqueles que mais precisam.

A grandeza de uma comunidade não está em quantas pessoas consegue convencer a pensar como ela, mas em quantas consegue acolher sem exigir que deixem de ser quem são.

Porque, quando a solidariedade escolhe quem merece existir com dignidade, talvez já não estejamos falando de solidariedade.

E porque ninguém se constrói sozinho, precisamos lembrar: o mundo que construímos para o outro é, também, o mundo no qual todos nós viveremos.

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