
A gente aprende o amor de um jeito torto. Aprende nas músicas que colocam o sofrimento como prova de intensidade. Nas histórias em que o ciúme vira cuidado e o controle vira dedicação. Aprende que amor que dói muito é amor de verdade. E amor que não dói, talvez não seja amor de verdade nenhuma.
Leva um tempo bom pra desaprender isso.
O amor que tropeça, aquele que não é perfeito, que às vezes diz a coisa errada, que trava na hora de abrir o jogo, que não sabe exatamente como amar sem se machucar no processo, esse amor não tem trilha sonora. Não tem aquela cena de cinema com chuva e iluminação perfeita.
Ele tem uma conversa difícil numa cozinha mal iluminada. Tem um silêncio que durou tempo demais. Tem uma tentativa que falhou e outra que foi atrás mesmo assim. E é justamente esse que me interessa.
Porque amor que só funciona quando tudo está bem não é amor. É conveniência.
Amor de verdade aparece quando as coisas ficam feias. E escolhe ficar. Não por obrigação. Não por medo de ficar sozinho. Mas porque a pessoa do outro lado vale o trabalho de atravessar o feio junto.
Tem uma diferença enorme entre amor que sufoca e amor que sustenta.
O primeiro preenche todos os espaços, não deixa margem pra você respirar, cobra, vigia, transforma qualquer pausa numa ameaça.
O segundo te deixa existir. Te deixa ser você sem que isso seja uma ameaça pra ninguém.
Eu demorei pra sentir essa diferença. E, quando senti, entendi umas coisas sobre o passado que preferia não entender.
O amor que tropeça e segue mesmo assim não é romantismo. É escolha. Toda manhã, de novo. Sem garantia, sem contrato, sem certeza absoluta de que vai dar certo.
É o risco mais humano que existe. E talvez por isso seja o que mais vale.
Cuida de quem fica, mesmo quando poderia ir.
@enricopierroofc